24 de agosto de 2026 · 6 min de leitura
Anestesias Permitidas: Álcool, Trabalho e Telas como Fugas do Sentir
Muitos homens usam álcool, trabalho excessivo e telas como estratégias para evitar emoções difíceis. O artigo explora como essas fugas, embora comuns, nos desconectam de nós mesmos.
A condição humana envolve uma busca constante por bem-estar e uma aversão natural ao sofrimento. Sentir angústia, tristeza, medo ou raiva é desconfortável. Diante disso, desenvolvemos estratégias para lidar com essas experiências. Algumas são saudáveis e construtivas. Outras, no entanto, funcionam como anestésicos: não resolvem a causa da dor, apenas nos impedem de senti-la por um tempo. Para muitos homens, esses anestésicos são socialmente aceitos e até incentivados. Falo especificamente de três: o álcool, o trabalho e as telas.
Essas não são fugas marginais. Pelo contrário, estão integradas à rotina, disfarçadas de lazer, responsabilidade ou entretenimento. O problema não reside no ato de beber uma cerveja, de se dedicar à carreira ou de assistir a um filme. A questão central é a *função* que essas atividades assumem. Quando se tornam o principal recurso para não entrar em contato com o que se passa internamente, elas deixam de ser escolhas e se tornam mecanismos de evitação.
A Ilusão do Controle
No meu consultório online, percebo uma linha comum na narrativa de muitos homens: a necessidade de controle. O mundo emocional é, por natureza, caótico, fluido e imprevisível. Sentimentos não obedecem à lógica ou a planilhas. Para uma masculinidade frequentemente treinada para ser racional, provedora e inabalável, essa falta de controle interno é ameaçadora.
É aqui que as anestesias entram como uma solução ilusória. Elas oferecem uma sensação de agência sobre o próprio estado de espírito.
- O álcool modula quimicamente a percepção, diminuindo a ansiedade e silenciando o ruído mental.
- O trabalho excessivo oferece um campo onde as regras são claras, o esforço gera resultados visíveis e a identidade de "homem produtivo" serve como um escudo contra a vulnerabilidade.
- As telas providenciam um fluxo infinito de estímulos externos, mantendo a mente ocupada demais para que ela possa se voltar para dentro.
O que parece ser controle, na verdade, é uma terceirização da nossa capacidade de autorregulação emocional. Em vez de aprender a navegar o desconforto, nós o desligamos temporariamente com um interruptor externo.
As Ferramentas da Fuga
Cada uma dessas fugas tem suas particularidades. O álcool é talvez a mais clássica. A transição do “beber para socializar” para o “beber para aguentar” é sutil. A cerveja depois do expediente deixa de ser um prazer e se torna uma necessidade para descomprimir, para criar uma barreira entre as pressões do dia e a vida pessoal, ou para simplesmente tolerar a própria companhia no silêncio da noite.
O trabalho, por sua vez, é a fuga mais nobre. É difícil criticar um homem que trabalha dez, doze horas por dia. Ele é visto como responsável, ambicioso, um provedor. E essa validação externa é poderosa. Ela justifica a ausência emocional em casa e a desconexão de si mesmo. O excesso de trabalho se torna uma identidade que mascara o vazio ou a confusão que habitam por baixo da superfície. O homem está ocupado construindo uma carreira, mas evita a tarefa de construir a si mesmo.
As telas são a ferramenta mais moderna e talvez a mais insidiosa. O smartphone é um portal para uma anestesia constante e portátil. Redes sociais, jogos, notícias, pornografia. A dopamina liberada por estímulos novos e rápidos cria um ciclo de dependência que fragmenta nossa atenção e nos impede de sustentar um estado de reflexão ou mesmo de tédio – estados estes que são fundamentais para o processamento emocional. O scroll infinito é o movimento perfeito para quem não quer parar e olhar para o que está sentindo.
O Preço da Desconexão
O uso crônico dessas anestesias tem um custo alto. O principal deles é que não é possível anestesiar seletivamente. Ao tentar silenciar a dor, a ansiedade e a raiva, silenciamos também a alegria, a vitalidade, a espontaneidade e a capacidade de conexão íntima. A vida se torna mais plana, mais cinzenta, um exercício de funcionalidade sem brilho.
Os problemas que tentamos evitar não desaparecem. Eles apenas são adiados e, frequentemente, crescem na sombra. A ansiedade não processada pode se manifestar em sintomas físicos. A tristeza não vivida pode se transformar em uma depressão crônica. A raiva suprimida pode corroer relacionamentos ou explodir de formas destrutivas.
A desconexão de si mesmo leva, inevitavelmente, à desconexão dos outros. Um parceiro, um filho ou um amigo não precisam de um homem perfeitamente funcional e controlado; eles precisam de um homem presente, capaz de se conectar emocionalmente. A presença física acompanhada da ausência emocional é uma das formas mais dolorosas de solidão a dois.
Reconhecer esses padrões não é um convite à culpa, mas à consciência. É o primeiro passo para questionar o piloto automático. A psicoterapia, especialmente em um formato acessível como o online, oferece um espaço seguro e confidencial para fazer exatamente isso. É um lugar para aprender a desligar as anestesias e a desenvolver a coragem de sentir, de sustentar o desconforto e, finalmente, de se reconectar com uma experiência de vida mais íntegra e autêntica.