A
Todos os artigos

21 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Quando você se reconhece no pai que prometeu não repetir

A paternidade pode reabrir experiências da infância. Entenda como reconhecer o que você repete do seu pai e construir outras formas de cuidar.

Talvez você tenha prometido que seria diferente. Que ouviria seu filho. Que não usaria o medo para conseguir obediência. Que estaria presente também quando a conversa fosse difícil.

Então chega um dia de cansaço. Seu filho chora, insiste, não faz o que você pediu. Você aumenta a voz e escuta uma frase conhecida saindo da própria boca. Era assim que seu pai falava com você.

Perceber essa semelhança pode trazer culpa, raiva e vergonha. Mas reconhecer uma repetição não significa estar condenado a mantê-la. A pergunta importante não é apenas “estou ficando igual ao meu pai?”. É também: “o que acontece comigo nessas situações e como posso responder por isso?”.

Quando o presente encosta na sua infância

Um estudo ouviu 17 pais turcos com histórico de trauma na infância. Nas entrevistas, a paternidade apareceu tanto como uma experiência que reativava feridas antigas quanto como uma oportunidade de mudança. Interações estressantes com os filhos despertavam experiências infantis ainda dolorosas. Os participantes também expressavam o desejo de não reproduzir formas prejudiciais de educar (Erduran et al., 2026).

Isso não quer dizer que todo pai que grita tenha vivido um trauma. Nem que uma pesquisa pequena, feita em outro país, descreva todos os homens brasileiros. Ela ajuda a compreender uma possibilidade: às vezes, a situação com o filho mobiliza algo que começou muito antes daquela discussão.

Vale se perguntar: quando meu filho me contraria, eu escuto uma discordância ou sinto que estou sendo desrespeitado? Quando ele chora, consigo perceber sua dificuldade ou fico tomado pela necessidade de interromper o choro?

No mesmo estudo, normas tradicionais de masculinidade dificultavam a expressão emocional e a busca por ajuda. A obrigação de parecer forte pode deixar um pai sem espaço para admitir que está assustado, confuso ou sobrecarregado.

Entender sua história não retira sua responsabilidade. Seu filho não precisa suportar agressões para que você compreenda sua infância. O objetivo é reconhecer o que acontece antes de repetir uma resposta que machuca.

Ser diferente exige mais do que uma promessa

“Não vou ser como meu pai” aponta o que você rejeita. Mas ainda não descreve como pretende agir. Você quer colocar limites sem humilhar? Participar dos cuidados sem esperar instruções? Conseguir ouvir uma reclamação sem transformar tudo em disputa?

Uma pesquisa com 109 pais encarcerados comparou um treinamento parental de orientação adleriana com outras atividades educativas. O treinamento teve 12 encontros semanais. Os dois grupos apresentaram melhora na percepção da paternidade e na autoestima, mas o avanço foi maior entre os participantes do treinamento parental (Chananel et al., 2026).

O resultado se refere a um contexto específico. Não demonstra, por si só, que esses pais mudaram todas as suas atitudes com os filhos ou que houve redução da reincidência criminal. Mostra que oferecer um espaço estruturado de aprendizagem pode fazer diferença na maneira como esses homens se percebem como pais.

Isso permite pensar a paternidade para além de uma qualidade que você tem ou não tem. Existem atitudes que precisam ser aprendidas e praticadas.

Você pode começar por situações concretas:

  • Identificar em quais momentos costuma perder o controle.
  • Preparar uma forma de interromper a discussão sem deixar a criança desamparada.
  • Sustentar um limite sem insultar ou ameaçar.
  • Depois de errar, reconhecer o que fez sem responsabilizar seu filho pela sua reação.

Pedir desculpas importa. Mudar o comportamento também.

O que passa de pai para filho nem sempre é uma frase

A repetição familiar não acontece apenas no jeito de falar. Também pode envolver cuidados com a saúde, alimentação e rotina.

Uma pesquisa com registros médicos acompanhados ao longo do tempo encontrou associações entre o uso de serviços de saúde pelos pais e pelos filhos. Em geral, o uso pelas mães estava mais associado ao dos filhos do que o uso pelos pais. Para consultas com clínicos gerais e especialistas, algumas associações eram mais fortes entre familiares do mesmo sexo, como pai e filho (Mora et al., 2026).

Isso não prova que o filho simplesmente copie o pai. O estudo também aponta a participação de acontecimentos familiares que não se resumem às necessidades de saúde. Ainda assim, abre uma pergunta útil: que lugar o cuidado ocupa na sua casa? Você procura atendimento quando precisa ou trata adoecer como sinal de fraqueza?

Outra revisão examinou a influência paterna no risco de obesidade dos filhos. Ela reuniu evidências sobre caminhos biológicos, comportamentais e sociais. Entre eles estão alterações em marcas que regulam a atividade dos genes nos espermatozoides, associadas à obesidade paterna, além de alimentação, atividade física, práticas parentais e condições de vida (Landry e Parker, 2026).

A revisão também destaca fatores como insegurança alimentar, características do bairro e saúde mental paterna. Portanto, não se trata de culpar o corpo do pai nem de reduzir a saúde dos filhos à força de vontade. Existem condições compartilhadas que precisam entrar na conversa.

O que você transmite inclui hábitos, possibilidades e dificuldades. Nem tudo está sob seu controle. Isso não torna irrelevante aquilo em que você pode participar.

Reconhecer sua história sem entregar a ela suas decisões

Uma revisão sobre humanos e outros animais reuniu conhecimentos da neurociência, dos hormônios e da psicologia para examinar a paternidade. Ela abordou tanto os mecanismos envolvidos no cuidado quanto seus efeitos sobre os próprios pais, sua saúde mental e suas relações. Também identificou lacunas importantes no conhecimento disponível (Bales et al., 2026).

Essa perspectiva amplia a conversa. O pai não é apenas alguém que influencia a criança. Ele também é afetado pela experiência de cuidar. Mas isso não significa que a paternidade transforme automaticamente um homem ou resolva dores antigas.

Você pode amar seu filho e precisar rever sua forma de agir. Pode reconhecer coisas boas recebidas do seu pai sem negar o que doeu. Também pode escolher atitudes diferentes sem precisar decidir, antes, se perdoa ou não sua história.

Na minha prática de psicoterapia online para homens, o foco é olhar para como essa história aparece no presente: no corpo, nas emoções e nas relações. Não para justificar o que machuca, mas para reconhecer suas respostas e trabalhar formas mais responsáveis de estar com seu filho.

Referências

  • Erduran Tekin Ö, Ermagan Caglar E, Sahin C. Reconstructing fatherhood after childhood trauma: a phenomenological study of Turkish men. Frontiers in psychology, 2026. doi:10.3389/fpsyg.2026.1886488
  • Chananel S, Bensimon M, Catz O et al.. Perception of Fatherhood and Self-Esteem Among Incarcerated Fathers After Participation in an Adlerian Parenting Training. International journal of offender therapy and comparative criminology, 2026. doi:10.1177/0306624x251366677
  • Bales KL, Finnerty-Haggerty A, Guan JY et al.. A holistic review of fatherhood in humans and non-human animals: mechanisms of fatherhood, effects on fathers themselves, and interactions of fathers with others. Frontiers in behavioral neuroscience, 2026. doi:10.3389/fnbeh.2026.1779750
  • Mora T, d'Uva TB, García-Gómez P et al.. The role of mothers and fathers in children's health care use. International journal of health economics and management, 2026. doi:10.1007/s10754-026-09417-x
  • Landry MJ, Parker JJ. The Role of Fathers in the Intergenerational Transmission of Obesity. Current obesity reports, 2026. doi:10.1007/s13679-026-00720-9

Escrito por André Garcia Neto, psicólogo clínico (CRP 08/45062), especialista em Gestalt-terapia e saúde mental masculina.

Agendar uma sessão

Agendar

O primeiro passo é seu.

Se você chegou até aqui, algo já está pedindo atenção. Envie uma mensagem e conversamos sobre como começar.