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16 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Pai de primeira viagem: quando o pós-parto também exige cuidado com você

A depressão paterna pode ficar escondida atrás da obrigação de dar conta. Entenda o que os estudos mostram e por que buscar cuidado não diminui sua responsabilidade como pai.

Você se preparou para a chegada do bebê. Pensou no dinheiro, no quarto, nas consultas e na rotina. Talvez tenha pensado menos em como ficaria por dentro. Quando o sofrimento aparece, pode ser difícil admitir: você queria ser pai, mas não está bem.

Uma coisa não anula a outra. Querer esse filho não impede o sofrimento emocional. E reconhecer uma dificuldade não significa colocar suas necessidades acima das necessidades do bebê ou da mãe.

A depressão paterna no pós-parto merece atenção. Para quem é pai pela primeira vez, essa conversa ajuda a separar a responsabilidade de cuidar da obrigação de aguentar tudo calado. Os estudos apresentados aqui, porém, não tratam exclusivamente de pais de primeira viagem.

A saúde mental do pai também faz parte do pós-parto

Uma revisão reuniu 13 estudos de cinco países do sul da Ásia. A frequência de depressão paterna no pós-parto variou de 3% a 60%. Os autores também apontaram que normas patriarcais podem esconder o sofrimento psicológico dos homens (Yasir e Hossain, 2026).

Essa diferença entre os números exige cuidado. Não significa que exista uma taxa única aplicável a qualquer pai. As pesquisas envolveram contextos e amostras diferentes. Também não permitem dizer quantos pais brasileiros passam por isso.

O resultado importante é outro: o sofrimento paterno precisa ser investigado, não descartado. A revisão defende incluir os pais na avaliação de saúde mental dos serviços que acompanham mães e crianças. Também recomenda instrumentos adequados à cultura local e profissionais preparados para reconhecer como a depressão pode se apresentar nos homens.

Para você, isso tem uma consequência prática. Não é necessário esperar que alguém pergunte. Se está difícil lidar com o que acontece, vale levar essa questão a um profissional. O cuidado com a mãe e o bebê continua essencial. Incluir o pai não precisa retirar atenção de ninguém.

Nem toda dificuldade é depressão, mas merece ser escutada

Não dá para concluir que você tem depressão apenas porque o começo da paternidade está difícil. Também não dá para chamar todo sofrimento de adaptação e encerrar o assunto. A avaliação precisa considerar o que está acontecendo, há quanto tempo e como isso interfere na sua vida.

Um estudo com 240 pais iranianos investigou uma escala usada para rastrear depressão no pós-parto. Desse grupo, 77 passaram também por entrevista diagnóstica com um psiquiatra. Naquela amostra, uma pontuação acima de 7 foi identificada como o melhor ponto de corte para detectar possível depressão paterna (Khanimani et al., 2026).

Isso não transforma a escala em um diagnóstico automático. Nem autoriza usar esse mesmo número como regra para homens brasileiros. Um instrumento de rastreamento ajuda a identificar quem pode precisar de avaliação. Não substitui a conversa clínica.

A pesquisa encontrou relações entre os grupos definidos pela escala e aspectos como satisfação com a vida, satisfação sexual e complicações na gravidez. Por ser um estudo que observou os participantes em um momento específico, não permite afirmar que esses fatores causaram depressão.

No meu consultório online, a proposta é olhar para a experiência inteira, não apenas para uma pontuação. Como você está vivendo essa mudança? O que consegue dividir? O que está tentando suportar sozinho? Essas perguntas não fecham um diagnóstico, mas ajudam a começar uma conversa que talvez esteja sendo adiada.

O casal precisa de apoio, não de mais uma obrigação

O sofrimento de um pode estar relacionado ao sofrimento do outro. Isso não significa que alguém seja culpado pelo estado emocional do parceiro.

Uma pesquisa com 250 casais atendidos em centros de saúde de Teerã encontrou uma relação entre a ansiedade paterna no pós-parto e a ansiedade e a depressão maternas (Ismailzadeh et al., 2026).

Aqui, duas distinções importam. O estudo avaliou ansiedade nos pais, não depressão paterna. Além disso, encontrou uma associação, sem demonstrar quem influenciou quem. O resultado reforça a importância de olhar para ambos, sem transformar o sofrimento em disputa.

Mas quem ajuda o pai a perceber que precisa de atendimento? Uma pesquisa australiana investigou a possível participação das mães nesse processo. Em um levantamento com 189 mulheres, 86,8% reconheceram corretamente a depressão paterna no pós-parto e 84,7% recomendaram opções de ajuda profissional (Barry et al., 2026).

Outra etapa ouviu 15 mães. As entrevistas indicaram limites para esse apoio: relações conjugais ruins, as exigências intensas do início da maternidade e o preconceito em torno da saúde mental masculina.

Sua parceira pode ajudar, mas não deve virar responsável por identificar, organizar e resolver seu sofrimento. Ela também pode estar precisando de cuidado. Procurar atendimento, falar com alguém de confiança e pedir ajuda concreta são iniciativas que você pode assumir.

Uma conversa pode começar de forma simples: “Não estou bem e quero procurar ajuda”. Sem exigir que ela faça o diagnóstico. Sem esperar que encontre todas as respostas.

Cuidar de você sem transformar o filho em motivo de culpa

Uma revisão sobre depressão parental reuniu evidências humanas e animais para discutir possíveis efeitos nos filhos. Ela cita evidência de análises que combinaram estudos indicando risco 42% maior de depressão em filhos de pais deprimidos (Ren et al., 2026).

Esse número expressa um aumento relativo de risco. Não significa que 42% desses filhos terão depressão. Também não é uma previsão sobre seu bebê. A revisão trata da depressão parental de forma ampla, não apenas do primeiro pós-parto.

Os autores discutem caminhos biológicos, sociais e ligados ao cuidado dos filhos. Também examinam intervenções, incluindo psicoterapia e tratamento medicamentoso. O resumo não permite apontar uma opção única como a melhor para todo pai.

O sentido dessa informação não é acrescentar culpa. É mostrar por que o sofrimento paterno merece cuidado. Na avaliação profissional, você pode falar das mudanças percebidas, das dificuldades em casa e do apoio disponível. Não precisa chegar sabendo explicar tudo.

Na psicoterapia online para homens, meu trabalho é oferecer espaço para compreender o que você está vivendo e construir formas de lidar com isso. A paternidade pode entrar nessa conversa sem exigir que você esconda suas dificuldades para ser levado a sério como pai.

Referências

  • Yasir Arafat SM, Hossain S. Paternal Postpartum Depression in South Asia. Public health challenges, 2026. doi:10.1002/puh2.70281
  • Ren J, Yu Y, Zhu Y et al.. Effects of paternal and maternal depression on offspring: Manifestations, mechanisms, and interventions. Neurobiology of disease, 2026. doi:10.1016/j.nbd.2026.107533
  • Barry CEM, Hassall A, Pasalich DS. Mothers' understanding of and attitudes towards providing support for paternal post-partum depression. Infant mental health journal, 2026. doi:10.1002/imhj.70093
  • Khanimani ZJ, Hajifoghaha M, Keshtvarz Hesam Abadi AM et al.. Investigating the Edinburgh Postnatal Depression Scale Cut-Off Point and Predictors of Paternal Postnatal Depression in Fathers: A Cross-Sectional Study. Nursing open, 2026. doi:10.1002/nop2.70466
  • Ismailzadeh F, Samadi P, Maasoumi R et al.. The Correlation Between Paternal Postpartum Anxiety and Maternal Postpartum Anxiety and Depression: A Cross-Sectional Study. Health science reports, 2026. doi:10.1002/hsr2.72975

Escrito por André Garcia Neto, psicólogo clínico (CRP 08/45062), especialista em Gestalt-terapia e saúde mental masculina.

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