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20 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

O que fica sem espaço quando você bebe, trabalha ou rola a tela

Álcool, trabalho e telas podem ocupar o lugar do contato com o que dói. Entenda essa função sem transformar todo hábito em problema.

Você encerra o expediente, mas abre outra tarefa. Pega o celular para descansar e passa a noite alternando vídeos. Serve uma bebida porque quer desligar a cabeça. Nada disso, sozinho, explica como está sua saúde mental. A pergunta é outra: o que acontece quando você tenta parar?

Às vezes, aparece um cansaço que você vinha ignorando. Em outras, uma preocupação, uma tristeza ou a sensação de estar sozinho. Manter a cabeça ocupada pode ser uma maneira de adiar esse contato.

Isso não significa que todo lazer seja fuga, nem que trabalhar bastante indique um problema psicológico. Importa perceber a função que cada comportamento assume. Você está escolhendo o que fazer ou precisa fazer alguma coisa para não encontrar o que sente?

Quando o alívio vira a única resposta

Beber, trabalhar e usar telas são experiências diferentes. Não devem ser tratadas como se tivessem os mesmos riscos. Mas vale observar se, na sua rotina, elas cumprem uma função parecida: preencher qualquer intervalo em que algum desconforto poderia aparecer.

O problema não é querer alívio. É ficar sem alternativas. Uma discussão termina em bebida. Uma frustração termina em mais trabalho. O silêncio termina em rolagem de tela. Antes de perceber o que aconteceu, você já está ocupado de novo.

Há um limite importante nas evidências deste artigo: os cinco estudos apresentados investigam álcool e regulação emocional, isto é, maneiras de lidar com emoções. Eles não estudaram excesso de trabalho ou uso de telas. A aproximação entre esses comportamentos é uma proposta de reflexão clínica, não uma equivalência comprovada por essas pesquisas.

No meu consultório online, a pergunta que orienta esse olhar não é apenas quanto tempo ou quanto álcool entrou na rotina. É também o que estava acontecendo antes, qual alívio foi procurado e o que ficou sem cuidado depois.

O que as pesquisas permitem dizer sobre o álcool

Um estudo com 64 homens atendidos em hospital comparou pacientes com dependência de álcool e de cannabis. O grupo com dependência de álcool apresentou mais dificuldade para lidar com emoções e maior impulsividade. Isso não permite dizer que todo homem que bebe tenha essas características. Também não esclarece o que veio primeiro, porque os dados foram coletados em um único momento (Vyas et al., 2026).

Outro estudo, ainda preliminar, reuniu 26 homens e 26 mulheres, todos veteranos militares com transtorno por uso de álcool. Os participantes passaram por uma situação planejada para provocar estresse. O resumo relata aumento de emoções desagradáveis e da vontade de beber em todos os participantes nessa etapa (Holzhauer e Bickar, 2026).

Nesse estudo, uma dificuldade maior para conter respostas impulsivas esteve associada a maior vontade de beber entre as mulheres, mas não entre os homens, na avaliação inicial. Isso pede cuidado com generalizações. O trecho fornecido também não apresenta o resultado completo da estratégia ensinada para reinterpretar situações estressantes. Portanto, não permite afirmar que ela tenha funcionado melhor para algum grupo.

Já um ensaio com 194 adultos com transtorno por uso de álcool moderado a grave comparou dois tratamentos durante 12 semanas. Ambos incluíam terapia cognitivo-comportamental. Um acrescentava um trabalho específico com emoções; o outro, conteúdos sobre saúde e estilo de vida (Knapp et al., 2026).

O trabalho emocional incluía permanecer em contato com sentimentos, atenção ao presente e recursos para atravessar o desconforto. O resumo menciona resultados iniciais favoráveis em uma pesquisa anterior, mas não informa os resultados finais dessa comparação maior. A proposta é relevante; sua superioridade não pode ser afirmada com o material disponível.

Entender o motivo não resolve tudo

Talvez você já saiba que bebe para aliviar a tensão. Saber disso pode ajudar a começar uma conversa, mas não significa que mudar será simples.

Uma pesquisa com 463 universitários encaminhados obrigatoriamente para uma intervenção breve comparou a versão habitual com outra que acrescentava um exercício escrito de autoafirmação. Não houve diferença entre as versões nas mudanças dos motivos para beber. Essas mudanças também não explicaram estatisticamente as reduções no consumo ou nas consequências avaliadas (Steinberg et al., 2026).

Isso não torna inútil perguntar por que você bebe. Mostra que, naquela amostra, a mudança não pôde ser explicada por esse caminho. Reconhecer o motivo e conseguir agir de outra maneira são tarefas diferentes.

Outra pesquisa, com 1.014 participantes, examinou consumo excessivo de álcool, formas de enfrentar o estresse, tolerância ao desconforto e risco de suicídio. Os modelos estatísticos apontaram que essas formas de lidar com emoções participavam da relação entre consumo e risco. Buscar apoio social e tolerar o desconforto apareceram no sentido oposto ao de algumas respostas centradas negativamente em si e no sofrimento (Antuña et al., 2026).

Essas associações não provam uma sequência de causa e efeito. Também não permitem prever o risco de uma pessoa isoladamente. Ainda assim, reforçam a importância de perguntar não só quanto alguém bebe, mas como enfrenta o sofrimento e com quem pode contar.

Criar espaço sem se deixar sozinho com a dor

Na perspectiva da Gestalt-terapia que orienta meu trabalho, interessa perceber como você vive uma situação enquanto ela acontece. O que muda no corpo? Que pensamento aparece? Em que momento surge a vontade de beber, continuar trabalhando ou pegar o celular?

Você pode começar observando uma situação concreta, sem transformar isso em mais uma cobrança:

  • Antes do comportamento, o que tinha acabado de acontecer?
  • Você percebe tensão, tristeza, irritação ou algo ainda difícil de nomear?
  • O que procura naquele momento: descanso, distração, companhia ou distância de uma conversa?
  • Depois, você se sente recuperado ou apenas encontra o mesmo problema mais tarde?

Não é preciso retirar todo alívio para aprender a sentir. Descansar e se distrair também têm lugar. O objetivo é ampliar suas possibilidades, incluindo conversar, pedir ajuda e reconhecer limites.

Se o consumo de álcool é intenso ou há sintomas quando você fica sem beber, procure avaliação médica antes de tentar parar sozinho. Se houver pensamentos de se machucar ou risco imediato, busque atendimento de urgência e companhia.

Na psicoterapia online para homens, meu trabalho é ajudar você a reconhecer a função desses hábitos e construir outras maneiras de lidar com o que aparece. Sem exigir que você chegue sabendo explicar tudo o que sente.

Referências

  • Knapp KS, Linn BK, Zhao J et al.. Emotion Regulation Treatment for Alcohol Use Disorder: Results of a Stage II Randomized Clinical Efficacy Trial. Alcohol, clinical & experimental research, 2026. doi:10.1111/acer.70350
  • Steinberg DR, DiBello AM, Carey KB et al.. Changes in Drinking Motives Do Not Mediate Reductions in Alcohol Use and Consequences Following a Brief Alcohol Intervention. Journal of studies on alcohol and drugs, 2026. doi:10.15288/jsad.25-00404
  • Holzhauer CG, Bickar L. Sex differences in the effects of stress and a cognitive emotion regulation microintervention on alcohol craving and inhibitory control in AUD. Alcohol, clinical & experimental research, 2026. doi:10.1111/acer.70268
  • Antuña Camblor C, Esteller-Collado G, Muñoz-Navarro R. Emotion regulation strategies mediate the relationship between excessive alcohol use and suicidal behaviour. Adicciones, 2026. doi:10.20882/adicciones.2418
  • Vyas DK, Nganbaren S, Jain SK et al.. Emotion regulation versus impulsivity in alcohol and cannabis dependence. Bioinformation, 2026. doi:10.6026/973206300221647

Escrito por André Garcia Neto, psicólogo clínico (CRP 08/45062), especialista em Gestalt-terapia e saúde mental masculina.

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