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15 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Masculinidade e alexitimia: quando faltam palavras para o que você sente

Dificuldade para reconhecer emoções não é falta de sentimento. Entenda a alexitimia e sua relação com masculinidade, corpo, vínculos e paternidade.

Você percebe que alguma coisa mudou. Fica calado, perde a paciência ou quer encerrar a conversa. Quando alguém pergunta o que aconteceu, a resposta vem curta: “Não sei”. Às vezes, você realmente não sabe.

Existe uma diferença entre não querer falar sobre sentimentos e não conseguir reconhecer o que está sentindo. As duas situações podem parecer iguais para quem está de fora. Mas pedem perguntas diferentes.

Alexitimia é o nome dado à dificuldade de identificar e descrever os próprios sentimentos, acompanhada de um pensamento mais voltado aos acontecimentos externos. Você consegue contar o que aconteceu no trabalho. Explica quem disse o quê. Mas pode travar quando tenta perceber como aquilo o afetou.

Isso não significa ausência de emoção. Também não permite concluir, por uma conversa difícil, que você tem alexitimia. O termo ajuda a compreender uma dificuldade. Não precisa virar mais um rótulo usado contra você.

Ser homem não explica tudo

Talvez você tenha aprendido que demonstrar medo prejudica sua imagem. Que tristeza deve ficar escondida. Ou que pedir apoio é sinal de incompetência. Vale observar como essas regras aparecem na sua vida, sem presumir que todos os homens receberam a mesma educação.

Um estudo com 214 adultos sauditas encontrou uma associação entre alexitimia e distorções cognitivas. Em linguagem comum, são interpretações que podem deformar a leitura de uma situação, como tirar conclusões amplas a partir de um único episódio (Yamani et al., 2026).

Mesmo considerando características demográficas, essas interpretações estiveram associadas à alexitimia geral e à dificuldade de identificar sentimentos. A associação não apareceu da mesma forma para descrever sentimentos ou manter o pensamento voltado ao mundo externo.

Os homens tiveram pontuações maiores de alexitimia nessa amostra. Porém, a relação entre distorções cognitivas e dificuldades emocionais não apresentou diferença significativa entre homens e mulheres. Portanto, o estudo não sustenta que esse funcionamento seja exclusivamente masculino.

Os autores discutem normas de contenção emocional e masculinidade no contexto árabe. Isso oferece uma pergunta útil para o leitor brasileiro: quais regras sobre ser homem limitam sua expressão? Mas não autoriza transportar os resultados diretamente para o Brasil. Como os dados foram coletados em um único momento, também não mostram o que causa o quê.

Perceber o corpo não é o mesmo que entender a emoção

Você pode notar o coração acelerado e continuar sem saber se está com medo, raiva ou expectativa. Perceber uma sensação e compreender seu significado são tarefas diferentes.

Essa distinção ajuda a ler um estudo com 94 pessoas com dependências. Os pesquisadores encontraram uma associação positiva entre a percepção corporal relatada pelos participantes e os níveis de alexitimia. A relação permaneceu mesmo considerando idade, sexo, sofrimento atual e impacto na vida cotidiana (Shimohara et al., 2026).

O resultado merece cuidado. Nessa amostra, relatar mais percepção dos sinais do corpo não significou ter menos dificuldade emocional. O estudo usou questionários de autorrelato. Não demonstrou que os participantes identificavam corretamente cada sinal corporal, nem que uma característica causava a outra.

Por isso, a orientação “preste atenção no corpo” pode ser um começo, mas não encerra o trabalho. É preciso explorar também a situação, os pensamentos e o que você teve vontade de fazer.

Uma investigação simples pode incluir:

  • O que aconteceu antes desse desconforto?
  • Que mudança percebo no corpo?
  • Qual pensamento apareceu?
  • Tenho vontade de me afastar, discutir ou procurar alguém?
  • Alguma palavra se aproxima do que sinto, mesmo sem certeza?

Essas perguntas não são um teste. Você pode começar com uma descrição imprecisa. “Estou incomodado e ainda não sei por quê” já comunica algo sem fingir uma clareza que não existe.

Quando a dificuldade entra na vida familiar

Na paternidade, reconhecer os próprios limites pode ficar difícil em meio às exigências diárias. Cansaço, frustração e preocupação podem se misturar. Isso não permite reduzir o esgotamento de um pai a uma suposta falta de habilidade emocional.

Uma pesquisa com 440 pais e mães poloneses examinou vínculos afetivos, alexitimia e esgotamento parental. Entre os homens, evitar proximidade com a própria mãe esteve diretamente associado a maior esgotamento. Já a ansiedade nesse vínculo apareceu relacionada ao esgotamento por um caminho estatístico que envolvia a alexitimia. O resumo relata um padrão semelhante entre as mulheres (Ścigała et al., 2025).

Isso não prova uma sequência causal nem permite responsabilizar a mãe pelo sofrimento de um adulto. Mostra relações entre aspectos que merecem ser investigados em conjunto. A história dos vínculos pode entrar na conversa sem virar uma sentença sobre a família.

Outro estudo ouviu 12 mães e dois pais com pontuações elevadas de alexitimia sobre refeições com filhos pequenos. Os participantes viam esses momentos como uma atividade social, não apenas como alimentação. Relataram desafios ligados às necessidades sensoriais das crianças, recursos de orientação pouco úteis e diferentes tentativas de fazer o melhor possível. Também houve relatos e observações de progresso na alimentação (Yu et al., 2026).

É uma pesquisa pequena, com apenas dois pais. Não representa os homens em geral. Ainda assim, mostra uma experiência mais complexa do que o rótulo de cuidador indiferente: havia dificuldades, esforço e mudanças.

Uma revisão reuniu dez estudos sobre alexitimia em jovens e seus pais. Sete entraram na análise conjunta, que encontrou uma correlação fraca entre os níveis de mães e filhos. O resumo fornecido não apresenta o resultado completo referente aos pais (Davies e Griffin, 2025).

A associação não significa destino nem prova transmissão direta. A própria revisão aponta uma origem com vários fatores, incluindo aspectos biológicos, genéticos e ambientais.

Dar nome sem transformar emoção em cobrança

Você não precisa trocar a obrigação de parecer forte pela obrigação de falar perfeitamente sobre sentimentos. Isso apenas mudaria a forma da cobrança.

Uma possibilidade é separar acontecimento, interpretação e emoção. “Ela discordou de mim” descreve um fato. “Ela não me respeita” é uma interpretação. “Senti vergonha” nomeia uma experiência possível, que ainda precisa ser conferida por você.

No meu consultório online, proponho investigar essas diferenças a partir de situações concretas. A psicoterapia online para homens pode oferecer espaço para reconhecer sensações, encontrar palavras e experimentar formas de conversar, sem exigir respostas prontas sobre o que você sente.

Referências

  • Shimohara Y, Kagaya A, Shimohara C et al.. Possible Association Between Interoception and Alexithymia in Patients With Addiction. Neuropsychopharmacology reports, 2026. doi:10.1002/npr2.70169
  • Ścigała DK, Sikora-Ścigała J, Zdankiewicz-Ścigała E. Alexithymia and attachment dimensions in relation to parental burnout: A structural equation modelling approach. PloS one, 2025. doi:10.1371/journal.pone.0334647
  • Yamani IAJ, Al-Krenawi A, Kaseem AEAE et al.. Cognitive Distortions and Alexithymia: A Cross-Sectional Study of Their Association. Healthcare (Basel, Switzerland), 2026. doi:10.3390/healthcare14142205
  • Yu S, Fildes A, Birtill P et al.. "It feels like we have tried everything!" - a follow-up qualitative study on mealtime experiences with parents with high levels of alexithymia. Appetite, 2026. doi:10.1016/j.appet.2026.108724
  • Davies RN, Griffin K. A systematic review of alexithymia in young people and their parents. Journal of affective disorders, 2025. doi:10.1016/j.jad.2025.119855

Escrito por André Garcia Neto, psicólogo clínico (CRP 08/45062), especialista em Gestalt-terapia e saúde mental masculina.

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