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17 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Ideação suicida masculina: o que dificulta colocar a dor em palavras

Falar sobre pensamentos suicidas pode envolver medo, vergonha e falta de segurança. Entenda o que os estudos mostram e como buscar cuidado.

Um homem pode pensar em morrer e, ainda assim, continuar trabalhando, respondendo mensagens e cumprindo compromissos. Por isso, não dá para avaliar o sofrimento de alguém apenas pelo que aparece na rotina.

Ideação suicida é o nome dado aos pensamentos sobre tirar a própria vida. Mas a conversa nem sempre começa com essas palavras. Pode começar com uma frase sobre não aguentar mais ou não enxergar saída. Isso precisa ser escutado, não descartado como exagero.

Por que alguns homens falam pouco? Não existe uma resposta única. Os estudos apresentados aqui ajudam a examinar esse silêncio. Não explicam, porém, todas as experiências masculinas, nem permitem concluir que todo homem evita falar pelas mesmas razões.

O silêncio não é apenas uma dificuldade individual

Antes de perguntar por que um homem não fala, vale perguntar: o que ele imagina que acontecerá se falar?

Pode haver medo de ser ridicularizado, tratado como incapaz ou ter sua intimidade exposta. Pode faltar alguém disponível para escutar sem transformar a conversa em sermão. Essas são possibilidades para investigar no cuidado, não conclusões demonstradas por todos os estudos citados.

Também existe uma diferença entre não querer falar e não encontrar condições seguras para isso. Uma pessoa pode esconder uma parte importante da própria vida porque teme as consequências de revelá-la.

Um estudo com 127 homens gays negros e latinos examinou experiências de abuso sexual na infância, ocultação da identidade sexual e comportamento suicida ao longo da vida. O sofrimento psicológico esteve associado a esse comportamento nos diferentes modelos analisados (Hayes e Ramirez, 2026).

Os resultados também sugeriram que esconder a identidade sexual pode agravar a vulnerabilidade ligada a uma forma grave de abuso. Mas há uma ressalva: embora a interação entre os fatores tenha sido estatisticamente significativa, a estimativa específica entre participantes com maior ocultação foi incerta. Não cabe transformar esse achado em uma regra ou em um número definitivo sobre risco.

O estudo não autoriza pressionar alguém a revelar sua sexualidade ou contar um trauma. Para o cuidado, a questão é construir segurança para falar, respeitando o tempo e as condições concretas de cada pessoa.

Perdas e condições de vida precisam entrar na conversa

Nem todo sofrimento começa ou termina dentro da pessoa. Separação, renda e participação no trabalho também precisam ser considerados.

Uma pesquisa com registros da Noruega analisou 6.993 mortes por suicídio e comparou esses casos com 104.895 homens da mesma faixa etária. Todos tinham 35 anos ou mais. Homens separados apresentaram as maiores chances de morte por suicídio entre as situações conjugais avaliadas. Estar fora do mercado de trabalho também esteve associado a chances maiores (Hughes e Qin, 2026).

Isso não significa que uma separação ou a saída do trabalho causem, sozinhas, um suicídio. O estudo encontrou associações. E seus resultados não podem ser transferidos automaticamente para todos os homens brasileiros.

Ainda assim, eles ajudam a formular perguntas importantes. Depois de uma separação, com quem esse homem conversa? Sem trabalho, como está sua renda? Que apoios continuam disponíveis?

Se você está passando por algo assim, a conversa sobre saúde mental precisa incluir essas condições. Não basta recomendar que você pense diferente enquanto suas dificuldades materiais e relacionais ficam de fora.

Há homens que falam quando o formato permite

Falar de sofrimento não precisa acontecer apenas em uma conversa longa, frente a frente. Outros formatos podem abrir uma possibilidade de expressão, desde que haja privacidade e limites claros.

No Nepal, uma pesquisa acompanhou homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens. Os participantes tinham histórico de ideação suicida ou depressão moderada a grave. Durante 30 dias, receberam três solicitações diárias pelo celular para responder sobre seu estado naquele momento (Gautam et al., 2026).

Foram respondidas 65,4% das solicitações. A aceitação foi alta. Nos relatos, apareceram facilidade de uso, reflexão sobre si e sensação de apoio. Também houve incômodo com perguntas repetitivas sobre suicídio e preocupação com privacidade.

Isso mostra que o acompanhamento digital foi viável naquele grupo. Não demonstra que um aplicativo, sozinho, previna suicídios. A participação também não foi igual para todos, o que reforça a necessidade de adaptar o cuidado.

Outro estudo, realizado em serviços de prevenção do HIV na Tailândia, reuniu 150 homens que fazem sexo com homens e mulheres trans. Quem usava PrEP, uma estratégia de prevenção do HIV, apresentou pontuações menores de sintomas depressivos (Lynn et al., 2026).

Como a pesquisa avaliou os participantes em um único momento, não é possível afirmar que a PrEP causou essa diferença. O resumo fornecido está incompleto e não permite concluir que houve redução da ideação suicida. Além disso, mulheres trans não são homens: uma amostra com essas populações não representa, por inteiro, a saúde mental masculina.

Escutar importa, mas o cuidado não pode parar aí

Um artigo sobre prevenção do suicídio em homens defende que estratégias amplas sejam acompanhadas de abordagens específicas para pessoas com risco elevado (Fazel, 2026). Em termos simples: incentivar homens a conversar é importante, mas não substitui avaliação e cuidado direcionado.

Se você está tendo pensamentos suicidas, pode começar sem organizar uma explicação completa:

  • “Estou pensando em morrer e preciso de ajuda.”
  • “Não me sinto seguro sozinho agora.”
  • “Preciso que você fique comigo enquanto procuro atendimento.”

Se estiver escutando alguém, procure entender o que ele está dizendo. Pergunte diretamente se está pensando em suicídio. Evite discutir se ele tem motivos para sofrer ou exigir promessas como única forma de proteção.

Se houver intenção de agir, um plano ou dificuldade de se manter seguro, procure atendimento imediato. No Brasil, ligue para o SAMU, no 192, ou vá a uma UPA ou pronto-socorro. Peça companhia a alguém de confiança e afaste-se de objetos ou substâncias que possam ser usados para se ferir. O CVV atende pelo 188 para apoio emocional, mas não substitui uma emergência.

No meu consultório online, a proposta é oferecer aos homens espaço para falar sem precisar chegar com tudo explicado. A psicoterapia pode ajudar a compreender o sofrimento e organizar o cuidado, articulada a outros serviços quando necessário. Em uma emergência, porém, não espere pela próxima sessão.

Referências

  • Lynn KS, Aurpibul L, Chotirosniramit N et al.. Depression and Suicidal Ideation Among Men who have sex with men and Transgender Women in Chiang Mai, Thailand. F1000Research, 2026. doi:10.12688/f1000research.181753.4
  • Fazel S. Improving suicide prevention in men. PLoS medicine, 2026. doi:10.1371/journal.pmed.1005169
  • Gautam K, Paudel K, Wickersham JA et al.. Feasibility and acceptability of smartphone-based ecological momentary assessment for monitoring suicidal ideation among gay, bisexual, and other men who have sex with men in Nepal. Journal of mental health (Abingdon, England), 2026. doi:10.1080/09638237.2026.2732887
  • Hayes BP, Ramirez MF. Childhood sexual abuse, concealment, and suicidality in gay Black and Latinx men. Psychological trauma : theory, research, practice and policy, 2026. doi:10.1037/tra0002269
  • Hughes CL, Qin P. Suicide risk in relation to socioeconomic and occupational disadvantage in middle- and old-aged men - A national register-based study. Journal of affective disorders, 2026. doi:10.1016/j.jad.2026.122564

Escrito por André Garcia Neto, psicólogo clínico (CRP 08/45062), especialista em Gestalt-terapia e saúde mental masculina.

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