28 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
Depressão masculina: quando o sofrimento não parece tristeza
Nem todo sofrimento chega com nome de tristeza. Entenda como sono, corpo e contexto de vida entram na avaliação da depressão em homens.
Você anda sem disposição, dorme mal e sente que tudo exige esforço. Mas, quando alguém pergunta como está, responde: “Só cansado”. Talvez seja cansaço mesmo. Talvez exista um sofrimento que ainda não encontrou palavras.
Falar de depressão masculina exige cuidado com dois extremos. Um é imaginar que ela sempre aparece como tristeza evidente. Outro é transformar qualquer irritação, dificuldade sexual ou noite ruim em sinal de depressão.
Os cinco estudos discutidos aqui ajudam a olhar para sono, hormônios, condições de vida e queixas físicas. Eles não estabelecem uma lista de sinais exclusivos dos homens. Também não permitem diagnosticar você pela leitura deste texto.
1. O que merece atenção quando a tristeza não é a queixa principal
Neste artigo, “sinais atípicos” significa manifestações menos reconhecidas como motivo para avaliar a saúde mental. Não significa um diagnóstico específico nem uma forma de depressão que todos os homens compartilham.
Em vez de tentar encaixar sua experiência em um rótulo, vale observar mudanças e levá-las para uma avaliação:
- Seu sono mudou e você deixou de se sentir descansado?
- A disposição caiu a ponto de prejudicar sua rotina?
- Você percebe irritação ou afastamento nas relações?
- Seu corpo apresenta incômodos que estão ocupando cada vez mais espaço na vida?
- Você sente sofrimento, mas tem dificuldade para dizer o que acontece?
Essas perguntas organizam uma conversa. Não formam um teste, e os estudos apresentados não validaram esse conjunto como uma escala de depressão masculina.
No meu consultório online, a proposta é compreender o que mudou, quando começou e como isso interfere na sua vida. Não partir da ideia de que toda queixa física é emocional. Nem deixar a experiência emocional de fora só porque você chegou falando do corpo.
2. Testosterona não explica tudo
É tentador buscar uma explicação única: “Estou assim porque minha testosterona caiu”. Os resultados disponíveis pedem mais cautela.
Um estudo acompanhou 4.107 homens com 70 anos ou mais durante cerca de oito anos. A concentração inicial de testosterona não apresentou associação significativa com o aparecimento de sintomas depressivos definidos pela escala utilizada. A mudança hormonal ao longo dos primeiros três anos também não previu esse desfecho (Forbes et al., 2025).
Isso não significa que hormônios nunca importam. Significa que, nessa população, a testosterona não funcionou como explicação ou previsão simples para o sofrimento depressivo.
Já uma pesquisa com 766 homens atendidos em uma clínica de urologia por sintomas de deficiência de testosterona encontrou associação entre níveis hormonais mais altos e menores pontuações de sintomas depressivos (Parikh et al., 2026).
Os trabalhos estudaram pessoas diferentes e usaram métodos diferentes. O segundo não demonstra que aumentar a testosterona trate depressão. Também não encontrou diferença significativa nas pontuações de depressão entre pacientes que usavam testosterona e aqueles que usavam clomifeno.
Se você suspeita de uma alteração hormonal, cabe avaliação médica. Mas um exame, sozinho, não conta toda a história do seu sofrimento.
3. Sono e queixas urinárias também entram na conversa
Na pesquisa da clínica de urologia, homens com maior risco de transtorno do sono relacionado ao trabalho em turnos apresentaram mais sintomas depressivos. O grupo de menor risco também relatou menos pensamentos suicidas (Parikh et al., 2026).
A associação merece atenção, mas não permite afirmar que o turno de trabalho causou depressão. Para quem trabalha à noite ou alterna horários, a pergunta não deve ser apenas “quantas horas você dorme?”. Também importa entender como essa rotina está afetando seu descanso e sua vida.
Outro estudo analisou 2.777 homens com 40 anos ou mais. Pontuações mais altas de sintomas depressivos estiveram associadas a maior chance de queixas urinárias, como dificuldade para começar a urinar, sensação de esvaziamento incompleto, perda de urina e necessidade de urinar à noite (Han et al., 2026).
Isso não transforma uma queixa urinária em sinal diagnóstico de depressão. Tampouco autoriza dizer que ela é “coisa da cabeça”. O achado indica que sofrimento emocional e sintomas físicos podem aparecer juntos e merecem investigação cuidadosa.
Cuidar da saúde mental não substitui avaliar o corpo. Avaliar o corpo também não precisa encerrar a conversa sobre como você está vivendo.
4. Condições de vida importam, sem definir quem você é
No estudo sobre sintomas urinários, a insegurança alimentar também esteve associada a várias dessas queixas. A análise sugeriu que a depressão poderia explicar parte dessa relação, mas não comprova uma sequência de causa e efeito (Han et al., 2026).
Uma pesquisa com 87.648 participantes do UK Biobank encontrou, em homens e mulheres, a maior contribuição estimada dos fatores psicossociais para a ocorrência de depressão e ansiedade. O acompanhamento durou cerca de 14 anos (Luo et al., 2026).
O recado não é responsabilizar você pelas circunstâncias em que vive. É evitar reduzir o sofrimento a um problema individual ou hormonal, ignorando o contexto.
Também é preciso respeitar as diferenças entre populações. Em duas clínicas de prevenção do HIV na Tailândia, um estudo avaliou 150 participantes, entre homens que fazem sexo com homens e mulheres trans. Quem usava PrEP apresentou, em média, menos sintomas depressivos. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto a pensamentos ou risco suicida (Lynn et al., 2026).
Como a pesquisa retratou um momento específico, não prova que a PrEP reduza depressão. Os resultados também não representam todos os homens brasileiros. E mulheres trans não devem ser tratadas como homens por integrarem a mesma amostra.
5. Procurar ajuda sem esperar uma certeza
Você não precisa chegar ao atendimento dizendo “tenho depressão”. Pode começar com algo mais próximo da sua experiência: “Meu sono piorou”, “não estou dando conta” ou “não sei explicar o que mudou”.
Uma avaliação precisa distinguir possibilidades, considerar sua saúde física e entender os prejuízos na rotina. Escalas usadas em pesquisas ajudam a medir sintomas, mas seus resultados não equivalem automaticamente a um diagnóstico individual.
Se houver pensamentos de se machucar ou de morrer, procure ajuda imediata. Em risco imediato, busque uma emergência ou ligue para o SAMU, no 192. O CVV oferece apoio emocional pelo 188.
No meu trabalho de psicoterapia online para homens, ofereço espaço para investigar essas mudanças sem exigir que você já saiba nomeá-las. Na perspectiva da Gestalt-terapia, vamos olhar para sua experiência, suas relações e seu contexto, construindo possibilidades de cuidado.
Referências
- Forbes M, Lotfaliany M, Tran C et al.. Testosterone Concentration and Incident Depression in Older Men: A Longitudinal Cohort Study. The journals of gerontology. Series A, Biological sciences and medical sciences, 2025. doi:10.1093/gerona/glaf019
- Parikh N, Oppenheimer A, Alexander JM et al.. Working Against the Clock: Depression and Hormonal Imbalance in Shift-Working Men. Urology, 2026. doi:10.1016/j.urology.2025.11.227
- Lynn KS, Aurpibul L, Chotirosniramit N et al.. Depression and Suicidal Ideation Among Men who have sex with men and Transgender Women in Chiang Mai, Thailand. F1000Research, 2026. doi:10.12688/f1000research.181753.4
- Luo Z, Sun W, Shan S et al.. Associations of modifiable risk factors with depression and anxiety in women and men: evidence from the UK Biobank. Translational psychiatry, 2026. doi:10.1038/s41398-026-04185-1
- Han M, Wei C, Fang Y et al.. The Mediating Role of Depression in the Association Between Food Insecurity and Lower Urinary Tract Symptoms in Middle-Aged and Older Men: A Population-Based Study. Neurourology and urodynamics, 2026. doi:10.1002/nau.70209