A
Todos os artigos

19 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Ansiedade em homens: quando chamar tudo de estresse esconde o que precisa de cuidado

Nem toda preocupação é apenas estresse. Entenda o que estudos com pais mostram sobre ansiedade masculina e quais experiências merecem atenção.

Você termina um dia difícil e diz que está estressado. A palavra parece explicar tudo: cobrança, preocupação, dificuldade de desligar. Mas será que ela descreve bem o que está acontecendo?

Não se trata de trocar um rótulo por outro. Nem de transformar uma semana pesada em diagnóstico. O problema é quando chamar tudo de estresse encerra a conversa antes que você consiga perceber como está vivendo.

Os cinco estudos que embasam este texto investigaram pais em situações específicas, como nascimento prematuro, internação neonatal e criação de filhos com autismo. Eles ajudam a pensar sobre ansiedade masculina, mas não representam todos os homens. Também não estabelecem uma lista de sinais que diferencie, sozinha, estresse de ansiedade.

Quando “estou estressado” deixa perguntas sem resposta

Talvez o ponto de partida não seja perguntar “tenho ansiedade?”, mas observar o que você está chamando de estresse. Essa palavra pode estar reunindo experiências diferentes, que precisam ser compreendidas no seu contexto.

Algumas perguntas podem ajudar nessa observação:

  • Sua preocupação está ligada ao que acontece agora ou se estende continuamente ao que pode dar errado?
  • Quando aparece uma possibilidade de descanso, você consegue aproveitá-la ou continua ocupado mentalmente com os problemas?
  • Você percebe mudanças na maneira de conversar, trabalhar ou participar da vida familiar?
  • O incômodo diminui quando a situação muda ou continua exigindo sua atenção?

Essas perguntas não são um teste. São exemplos para organizar a conversa sobre o sofrimento, não sinais comprovados pelos cinco estudos. Uma resposta isolada não permite concluir que existe um transtorno.

Um dos trabalhos acompanhou 112 homens durante a gravidez da parceira e seis semanas depois do parto. O estresse crônico durante a gestação ajudou a prever preocupação após o nascimento. Entre os pais que enfrentaram ameaça de parto prematuro, mas tiveram filhos nascidos a termo, uma tendência mais duradoura à ansiedade também apareceu como fator relevante (Wonner et al., 2026).

Isso não significa que estresse necessariamente se transforma em ansiedade. Mostra que eles podem se relacionar. Por isso, dizer “é só estresse” pode ser pouco para entender uma preocupação que vem se mantendo.

A situação muda, mas a preocupação nem sempre acompanha

É compreensível imaginar que o alívio chegará quando um problema terminar. Mas essa expectativa precisa ser conferida na experiência, não tomada como garantia.

Um estudo avaliou 116 homens durante a gestação da parceira e seis semanas após o parto. Os pais que enfrentaram risco de prematuridade e tiveram um bebê prematuro apresentaram mais sintomas de ansiedade durante a gravidez do que o grupo com nascimento a termo sem essa ameaça. Depois do parto, também tiveram escores de ansiedade mais altos que o grupo de comparação (Pernidaki et al., 2026).

Há uma nuance importante: a análise das mudanças ao longo do tempo não encontrou trajetórias claramente diferentes entre os grupos. Portanto, o resultado não autoriza afirmar que todos esses pais pioraram ou seguiram o mesmo caminho.

Outro estudo acompanhou mães e pais de bebês atendidos em UTI neonatal. Entre os pais avaliados, a proporção com sintomas de ansiedade clinicamente significativos foi de 16,9% aos seis meses, 15% aos 12 meses e 17,6% aos 24 meses de idade corrigida dos filhos (Span et al., 2026).

Esses percentuais ficaram relativamente estáveis. Isso não quer dizer que exatamente os mesmos homens permaneceram ansiosos durante todo o período. Significa que havia uma parcela relevante de pais com sintomas elevados muito depois da alta.

A pergunta para você é simples: a situação melhorou, mas o sofrimento continua? Se continua, ele merece atenção própria, mesmo que outras pessoas considerem que o pior já passou.

O que acontece nas relações também importa

Olhar para a ansiedade de um homem não exige isolá-lo do ambiente em que vive. As relações familiares também fazem parte dessa compreensão.

Uma pesquisa com 250 casais encontrou associação entre ansiedade paterna no pós-parto e ansiedade e depressão maternas. Em linguagem direta: maiores níveis de sofrimento de um lado estiveram relacionados a maiores níveis do outro (Ismailzadeh et al., 2026).

O estudo avaliou os participantes em um único momento. Por isso, não permite dizer quem influenciou quem, nem afirmar que um parceiro causou o sofrimento do outro. Transformar essa associação em culpa seria distorcer o resultado.

Outro trabalho investigou 83 casais com filhos com autismo, no contexto chinês. Os pesquisadores estudaram a flexibilidade psicológica, que podemos entender, de forma simplificada, como a capacidade de lidar com experiências difíceis sem ficar preso a uma única maneira de reagir.

A flexibilidade de cada responsável esteve associada ao próprio envolvimento na criação dos filhos. A flexibilidade materna também se relacionou ao envolvimento paterno e a menores níveis de ansiedade de ambos. Houve ainda uma associação indireta com a participação do pai, envolvendo a ansiedade materna (Liu et al., 2026).

Esses achados não provam causa e efeito e não devem ser transferidos automaticamente para famílias brasileiras. Muito menos significam que cabe à mulher regular a ansiedade do homem. Eles reforçam a importância de considerar o contexto familiar, sem apagar a responsabilidade e as necessidades de cada pessoa.

Observar melhor antes de se cobrar mais

A contribuição desses estudos não é oferecer um diagnóstico pela internet. É mostrar que a ansiedade dos pais merece ser investigada e acompanhada, inclusive quando existe uma situação concreta que parece explicar toda a preocupação.

Para começar, tente descrever sua experiência sem depender apenas da palavra “estresse”. O que ocupa sua cabeça? Em quais momentos isso aumenta? O que mudou na sua rotina? Há quanto tempo você percebe esse padrão?

Você pode anotar essas observações para conversar com um profissional. Não para vigiar cada reação, mas para conseguir apresentar o que está acontecendo. Se o sofrimento persiste ou interfere na sua vida, uma avaliação pode ajudar a compreender suas necessidades, sem antecipar um diagnóstico.

No meu consultório online, o trabalho com homens parte dessa atenção à experiência: o que você sente, como responde e o que acontece nas suas relações. Na psicoterapia, podemos investigar juntos o que ficou escondido sob a palavra “estresse” e construir formas de cuidado que façam sentido na sua vida.

Referências

  • Pernidaki V, Schermelleh-Engel K, Sommerlad S et al.. Fathers at risk: Effects of threatened and actual preterm birth on the course of paternal peripartum depression and anxiety. PloS one, 2026. doi:10.1371/journal.pone.0356746
  • Ismailzadeh F, Samadi P, Maasoumi R et al.. The Correlation Between Paternal Postpartum Anxiety and Maternal Postpartum Anxiety and Depression: A Cross-Sectional Study. Health science reports, 2026. doi:10.1002/hsr2.72975
  • Wonner NR, Schmidt-Riese MD, Pernidaki V et al.. Antepartum stress, trait anxiety, and medical risks as predictors of fathers' postpartum worry after threatened preterm birth. Journal of reproductive and infant psychology, 2026. doi:10.1080/02646838.2026.2737404
  • Liu J, Chen Z, Li J et al.. The asymmetric relationship of parental psychological flexibility and parenting involvement in autism: anxiety as a mediator. Frontiers in public health, 2026. doi:10.3389/fpubh.2026.1912741
  • Span LC, van Dokkum NH, Ter Horst HJ et al.. Parental Anxiety Trajectories 2 Years After NICU Discharge. Pediatrics, 2026. doi:10.1542/peds.2025-074834

Escrito por André Garcia Neto, psicólogo clínico (CRP 08/45062), especialista em Gestalt-terapia e saúde mental masculina.

Agendar uma sessão

Agendar

O primeiro passo é seu.

Se você chegou até aqui, algo já está pedindo atenção. Envie uma mensagem e conversamos sobre como começar.