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03 de agosto de 2026 · 6 min de leitura

A cura do trauma não depende do perdão

O perdão tem função evolutiva e social, mas transformá-lo em pré-requisito para a cura pode adiar o cuidado que realmente importa.

O perdão é um fenômeno evolutivo que, historicamente, foi essencial para a construção e manutenção de comunidades (Tooby & Cosmides, 2005). Ele permitia que grupos minimizassem conflitos e preservassem a cooperação necessária à sobrevivência.

Onde o perdão vira armadilha

Um problema aparece quando o perdão é apresentado como etapa obrigatória da recuperação. A pessoa que sofreu passa a carregar duas tarefas: lidar com a dor e ainda produzir um sentimento que não sente. Quando o perdão não vem, surge culpa — como se a pessoa estivesse falhando na própria cura.

O que a cura realmente exige

Recuperar-se de um trauma envolve, sobretudo: voltar a se sentir seguro no corpo, reorganizar a narrativa do que aconteceu, restabelecer limites e recuperar a capacidade de escolher. Nada disso depende de perdoar quem causou o dano.

Perdão como consequência, não como meta

Para algumas pessoas o perdão surge naturalmente, mais adiante, como efeito de um processo já feito. Para outras, nunca surge — e a vida segue plena. Ambos os desfechos são legítimos.

Na prática clínica

Com homens, um ponto costuma ser central: raiva não é o mesmo que vingança, e não perdoar não é o mesmo que odiar. Nomear a raiva com precisão libera energia para reconstruir a vida em vez de administrar ressentimento.

Escrito por André Garcia Neto, psicólogo clínico (CRP 08/45062), especialista em Gestalt-terapia e saúde mental masculina.

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