A cura do trauma não depende do perdão.
O perdão é um fenômeno evolutivo que, historicamente, tem sido essencial para a construção e manutenção de comunidades (Tooby & Cosmides, 2005). Nos primórdios, permitia que os grupos minimizassem conflitos e ajudava a apoiar, fomentar e preservar a cooperação, para que pudessem funcionar eficazmente, prosperar e alcançar os objetivos necessários à sua sobrevivência(...)
Em suma, os membros do grupo precisavam uns dos outros, um fato que não mudava quando uma injustiça era cometida. Eles precisavam aprender a lidar com as injustiças e sobreviver. Com o tempo, o conceito de perdão se transformou em uma virtude moderna. Muitos consideram o perdão o ápice da virtude moral. Há até profissionais de saúde mental que acreditam que o perdão seja o segredo da cura, identificando-o como um objetivo terapêutico ou meta clínica necessária (Luskin, 2003). Eu não sou um deles.
Uma Análise Mais Profunda do Perdão e do Trauma
Pesquisas mostram que, em geral, as pessoas praticam o perdão com mais facilidade dentro de seu círculo social ou grupo de apoio principal, enquanto tendem a negar o perdão àqueles fora de seu grupo (McAuliffe & Dunham, 2016). No entanto, essa pesquisa depende da premissa de dinâmicas de grupo altamente funcionais. Nem todos os relacionamentos que vivenciamos (ou mesmo dentro de nossos próprios sistemas familiares) se enquadram nessa categoria. É simplesmente inadequado generalizar e aplicar um modelo de perdão de forma uniforme a todos os relacionamentos. Os relacionamentos, por definição, são cheios de nuances e muito complexos — assim como a experiência do trauma.
Além disso, nem todas as transgressões são iguais. Por exemplo, posso ser capaz de perdoar um amigo próximo que mentiu para mim, mas me ver relutante ou incapaz de perdoar o mesmo amigo se ele me agredisse. Uma abordagem única para a cura simplesmente não funciona! Mais especificamente, o modelo de perdão, quando aplicado igualmente a todos os domínios, é fundamentalmente falho. Não leva em consideração o contexto, o estilo de apego, as implicações culturais, os valores morais pessoais, as diferenças individuais orgânicas, as experiências passadas (incluindo a exposição prévia a traumas) e a profundidade e extensão da transgressão.
Perdão imposto?
Infelizmente, tenho observado em minha prática que muitos clientes têm um histórico de serem forçados (por meio de diversas fontes) a acreditar no valor e na importância de sempre perdoar. Considere a Oração do Senhor, que nos exige que nos apresentemos humildemente diante de Deus e peçamos: "Perdoa as nossas ofensas..." e nos desafia a "...perdoar aqueles que nos ofendem". A pressão para perdoar é frequentemente exercida por aqueles que temos em alta consideração. Quando familiares, conselheiros, mentores, amigos próximos ou líderes espirituais insistem nisso, muitos clientes se sentem manipulados, envergonhados e forçados a trair a si mesmos, colocando as necessidades de seu agressor acima das suas próprias.
A cura do trauma exige um foco no eu — não nas necessidades do outro. Quando afirmamos que o perdão é um componente necessário da cura, dizemos aos sobreviventes que eles não podem ser íntegros novamente a menos que estendam o perdão até mesmo àqueles que cometeram os atos de violência física e psicológica mais imagináveis.
Promovendo a Mudança
Como sociedade e como terapeutas, precisamos começar a mudar a linguagem e a conversa em torno do perdão. Se não o fizermos, manteremos o status quo e corremos o risco de nos tornarmos parte do problema. A linguagem que usamos, especialmente quando estamos em uma posição de poder, realmente importa.
Também precisamos mudar a forma como pensamos sobre esse assunto. A relutância em perdoar não se traduz diretamente em raiva, agressão, busca por vingança ou recusa em seguir em frente, nem equivale necessariamente a uma resposta disfuncional ao trauma. Em muitos casos, os sobreviventes simplesmente não se identificam com o conceito de perdão. A jornada de cura se concentra em criar e reforçar limites saudáveis, recusar-se a guardar segredos tóxicos, aprender a priorizar suas próprias necessidades físicas e emocionais e curar as partes mais jovens de si mesmos que ainda se sentem presas ao trauma do passado. Se o perdão não faz parte da jornada de cura de um sobrevivente, isso não significa que haja algo errado.
Seja fiel a si mesmo enquanto se cura
Deixe-me ser claro — para aqueles que consideram o perdão uma parte curativa de sua jornada, eu os encorajo a abraçá-lo. Se você não se identifica com isso, ou se sente que o perdão é uma barreira para sua cura, eu o encorajo a respeitar isso. O que estou argumentando é que nem todos que vivenciam um trauma se beneficiarão ao compartilhar espaço físico, emocional ou psicológico com a pessoa que os prejudicou. O perdão não é necessariamente uma parada obrigatória no caminho para a cura. Simplificando, a forma como você se cura depende de você!
Referências
- Luskin, F. (2003). Forgive for good: A proven prescription for health and happiness. Harper One.
- McAuliffe, K. & Dunham, Y. (2016). Group bias in cooperative norm enforcement. Philosophical Transactions of The Royal Society B Biological Sciences, 371(1686).
- Tooby, J. & Cosmides, L. (2005). Conceptual foundations of evolutionary psychology, in Handbook of Evolutionary Psychology, ed. Buss, D. M. Wiley, 5-67.